quinta-feira, dezembro 15, 2005

Ritualizar é preciso


Final de ano e a típica maratona de jantares, comemorações e todo tipo de eventos sociais se inicia com grande entusiasmo. Nesse turbilhão de festividades, entre um aperitivo e outro, surpreendo-me com alguma frequência indagando o porquê de tantas alegrias com hora marcada, de uns quantos encontros entre colegas e parentes que acontecem uma única vez ao ano, naquele mesmo dia, daquela mesma forma. Sob um olhar rápido, os sorrisos e cumprimentos parecem até forjados e mecânicos. Mas, ao observar melhor, percebo que há nesses rituais, com todos os seus gestos tradicionais, um propósito relevante.

São como grandes algarismos em nosso relógio da vida, marcando o passar do tempo e o significado de cada etapa. Pêndulos que soam alto e que nos fazem parar por um longo instante para observar e refletir. Sobre amigos e familiares presentes e ausentes, relações, tempo e espaço nos quais interferimos. Sobre como “tiquetaqueamos” por aí!

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Tagarelas

Ontem, ao ver num noticário de TV algum político discursar com as devidas frases prontas, as pausas cronometradas, a assertividade calculada e o dissimulado olhar no olho (nesse caso, na câmera), pensei que ditos tagarelas são um ótimo exemplo dos espetáculos de que é capaz o chamado media trainning. Para quem não está familiarizado com o termo, media trainning é um tipo de treinamento aplicado, em geral, por empresas especializadas em assessoria de imprensa. Esse treinamento, além de postura, impostação de voz e afins, ensina a quem fala à mídia (ou ao público) como se expressar para ser entendido dessa ou daquela maneira, por tal ou qual interlocutor. Ensina também artifícios de argumentação para as incômodas saias justas ou situações em que simplesmente não se quer (ou não se pode) comentar o assunto, mas há que se parecer objetivo e contundente. Certamente, estes senhores, os políticos, estão entre os melhores alunos da matéria (ou piores, dependendo do ponto de vista). E há muito já ultrapassaram as fronteiras da timidez e da “vergonha”.

Imaginei então que aconteceria se passasse a existir um órgão de regulamentação da atividade de relações públicas (a exemplo do CONAR para a publicidade), voltado a regular forma e conteúdo dos discursos veiculados na mídia. O intuito seria manter um mínimo de veracidade no que se fala e um máximo tolerável de uso dos artifícios de retórica. “Discurso enganoso”, “plágio de argumentação”, “matéria ofensiva” e “sofismas” seriam tratados como infrações graves. Penalizar-se-iam os contraventores com períodos de mudez pública compulsória (curtos ou longos, dependendo dos delitos). Aplicadas as regras à situação atual, ficaríamos um bom tempo sem ouvir muitos e muitos tagarelar por aí. Fica dada a sugestão!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

As 1.000 histórias

Já sei, já sei... Escrever sobre pena de morte parece coisa de vestibulando treinando argumentação com um tema já bem gasto. O caso é que hoje li na página de abertura do UOL a seguinte manchete: “EUA executam milésimo condenado à morte”. E imediatamente tentei abstrair o inalcançável sentimento de se estar fadado a uma injeção letal. A angústia da espera. Sofrimento talvez maior que o da própria morte. No perfil do milésimo condenado, ao qual se impunha a pena capital por ter matado esposa e sogro na frente dos dois filhos, além dos problemas com alcoolismo, algo mais chamava à atenção: era veterano da Guerra do Vietnã.

Meu sábio pai (e se você o conhece concorda que o “sábio” ali não está à toa) costuma dizer que uma pessoa somente muda, para melhor ou para pior, se passa por uma experiência visceral. Se prova algo que “sente nas veias”, isto é, capaz de alterar o ritmo das pulsações com intensidade e por tempo suficientes para deixar registrado um novo estado de espírito no ser.

Segundo a notícia, o veterano de guerra nunca negou ser culpado pelo crime ao qual fora condenado, mas afirmou que os traumas vividos no Vietnã contribuíram para alterar o seu estado mental no dia do crime. Ouso traduzir que, em outras palavras, ele nunca mais fora o mesmo depois do vivido durante a guerra. Que em seu tempo no front registrou o comando “matar” como ordem para momentos em que o ritmo de sua pulsação chegasse à determinada intensidade. Para mim, é difícil dizer com convicção quem é o verdadeiro ou maior culpado. E que dizer das outras 999 histórias?