terça-feira, abril 04, 2006

Adeus

Hoje o dia nasceu triste
As cores pálidas, a comida insossa
O coração pesado, o ritmo cansado
Recordações findas
De alguém que se foi
Mococa, São Paulo, Paris, Londres
Bons momentos...
Carsus, siga em paz!
Na bagagem, só boas lembranças
Carsus Dias, Auto-retrato - Bar Democrata, São Paulo, 1999.

quarta-feira, março 29, 2006

Simples e exato


Muitas vezes me deixo seduzir pelos best sellers, os tais que posam entre os mais vendidos em rankings e rankings, por semanas a fio. Apesar de algumas fórmulas de redundante apelo comercial, que não raro se repetem nesses títulos, ainda sou das pessoas que crêem que a versão final dos fatos é a do leitor. A partir de seu repertório próprio, pode se divertir caçando falhas no enredo ou, simplesmente, se deleitar com uma trama fácil e ingênua, como um daqueles filmes leves e de previsível e feliz desfecho, mas que cumprem pelo menos dois importantes papéis, a meu ver: realizar a catarse inversa (a purgação dos males por meio do belo e do leve, em lugar do uso da tragédia que acomete o outro e que assim se distancia do leitor ou espectador); o resgate do óbvio e do simples, como alternativas na condução da vida.

Então, de tempos em tempos, por vezes sob algumas críticas dos mais “intelectualizados” (ou intelectualóides!), me atrevo a fruir (ou a consumir!) alguma dessas obras.

Foi assim com “O Caçador de Pipas” do afegão Khaled Hosseini. Um livro de trama simples. Um roteiro de cinema pronto, exato, mais do que um bom livro. Mas que não por isso deixa de passar inúmeras imagens e idéias interessantes sobre o país do autor e sua cultura, sobre as tensas relações entre castas, sobre a amizade e o poder.

Uma das passagens do livro me chamou a atenção, digamos, pelo poder de síntese. O protagonista Amir e seu pai conversam sobre religião. O sábio pai diz ao filho que o único pecado que existe é roubar e que qualquer outro é simplesmente uma variação do roubo. E explica: "Quando você mata um homem está roubando uma vida. Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia está roubando o direito à justiça”.

Simples, não é?! Aí me pergunto se muitas outras coisas não podem ser tratadas assim, de forma tão direta. Para mim, de evidente tendência à prolixidade, serviu como um contraponto importante. Em resumo, este livro, simples e exato, deixou para mim um registro relevante. Ficam as dicas: do livro e de uma reflexão sobre a passagem descrita, que, em tempo, remete ao simples e não ao simplório!

Ilustração: Simplicity VIII, Carlo Marini.

sábado, fevereiro 25, 2006

O Aprendiz e o Sabichão

O aprendiz sabe pouco do tudo
Mas muito sobre o nada
Tem consciência do que lhe falta: saber
E, assim, compreende a extensão do muito a conhecer
Entende que, se alguém já viveu o que ele, aprendiz, pretende viver
Tem pelo menos algo a contar
E, se tem algo a contar, cabe escutar

Respeita o caminho à vista
Nele as pedras, as trilhas, os desertos e os oásis
Sem distinção
Sabe ouvir para um dia saber falar
Falar para um dia se fazer ouvir

O sabichão sabe pouco
Sobre o tudo e sobre o nada
Quando olha adiante vê um espelho
Que distorce o passado e esconde o porvir
Incapaz de distinguir entre o sábio e o tolo, entre o ser e o estar
Julga ser um
Quase sempre é seu oposto

Amarrados aos seus pés estão dois grandes pesos:
a pretensão e a vaidade
Quando tenta ascender, não o deixam chegar
Finge não ouvir para não ter que falar
Finge falar para não precisar ouvir