No caderno Cotidiano da Folha de hoje, chamou-me à atenção o que declarou à reportagem do jornal o senhor Décio Tozzi, arquiteto e professor da FAU, sobre o polêmico projeto Cidade Limpa, o qual proíbe a veiculação de outdoors na capital paulista, entre outras restrições à publidade exterior na cidade. Transcrevo: "Que se danem os publicitários que perderam dinheiro. Isso faz parte da evolução cultural da cidade."
Em primeiro lugar, Tozzi poderia ter sido mais elegante no discurso, sem dúvida. A estética também se externa no uso das palavras e na polidez. Em segundo, não foram os publicitários que perderam dinheiro e sim os empresários do setor e as centenas (se não milhares) de empregados que pagavam suas contas graças ao trabalho em uma indústria absolutamente legal e legítima até 2006. Em terceiro, boa parte da cultura deste país só existe graças à publicidade que, direta ou indiretamente, a financia. Como o jornal ao qual o senhor Tozzi fez tão veemente declaração.
Esta fala infeliz fica como uma prova da visão estreita dos que aconselham o prefeito Kassab em sua cruzada contra os "malvados publicitários" que sujam a cidade. Minha opinião: os verdadeiros porcalhões são outros.
Tenho acompanhado o desenrolar desta novela desde seus capítulos iniciais, chocando-me com o tom radical e definitivo, para não dizer ditatorial, de algumas decisões contempladas na nova lei. Segundo seus defensores, o radicalismo se justifica pois a veiculação de publicidade exterior ilegal havia chegado ao total descontrole. A única solução "possível" seria e foi proibir de vez.
Concordo que São Paulo estivesse precisando de uma faxina. E, concordo não só como alguém que preza a cidade em que nasceu e viveu por anos, mas também como publicitária consciente de que a poluição visual é tão nociva às próprias mensagens, que perdem clareza e efetividade no caos, quanto para a estética da cidade. Mas daí à completa proibição, punindo essencialmente os que trabalhavam dentro da lei e da ordem, há uma distância abissal. E isso feito como foi, sem dar tempo (anos, quero dizer!) de adaptação aos que se lastreavam economicamente em atividades no setor, incluindo trabalhadores e empresários, não me parece nem mesmo razoável. E, se agora a fiscalização existe e multa a publicidade recém-ilegal, por que não o fazia antes, com igual rigor? Foi tomado o caminho mais fácil e mais ruidoso (o que é música para os ouvidos de um político até então desconhecido).
Em minhas visitas a São Paulo já começo a sentir certa nostalgia pelos tempos em que acompanhava a sequência de frontlights na Marginal Pinheiros, em que era apresentada a algum novo produto no caminho para o trabalho, que ria de uma tirada inteligente em alguma placa durante uma interminável e tediosa espera pela luz verde no semáforo... Para alguns só poluição. Para outros, informação e diversão. Para alguns poluição visual, somente. Para outros vitalidade e ritmo urbanos. Ou alguém imagina o Times Square e a Broadway sem seus inúmeros e enormes luminosos? Em resumo, sou partidária do meio termo e do bom senso, mais complicados de serem postos em prática, mas também justos e adequados em igual proporção.