quarta-feira, março 29, 2006

Simples e exato


Muitas vezes me deixo seduzir pelos best sellers, os tais que posam entre os mais vendidos em rankings e rankings, por semanas a fio. Apesar de algumas fórmulas de redundante apelo comercial, que não raro se repetem nesses títulos, ainda sou das pessoas que crêem que a versão final dos fatos é a do leitor. A partir de seu repertório próprio, pode se divertir caçando falhas no enredo ou, simplesmente, se deleitar com uma trama fácil e ingênua, como um daqueles filmes leves e de previsível e feliz desfecho, mas que cumprem pelo menos dois importantes papéis, a meu ver: realizar a catarse inversa (a purgação dos males por meio do belo e do leve, em lugar do uso da tragédia que acomete o outro e que assim se distancia do leitor ou espectador); o resgate do óbvio e do simples, como alternativas na condução da vida.

Então, de tempos em tempos, por vezes sob algumas críticas dos mais “intelectualizados” (ou intelectualóides!), me atrevo a fruir (ou a consumir!) alguma dessas obras.

Foi assim com “O Caçador de Pipas” do afegão Khaled Hosseini. Um livro de trama simples. Um roteiro de cinema pronto, exato, mais do que um bom livro. Mas que não por isso deixa de passar inúmeras imagens e idéias interessantes sobre o país do autor e sua cultura, sobre as tensas relações entre castas, sobre a amizade e o poder.

Uma das passagens do livro me chamou a atenção, digamos, pelo poder de síntese. O protagonista Amir e seu pai conversam sobre religião. O sábio pai diz ao filho que o único pecado que existe é roubar e que qualquer outro é simplesmente uma variação do roubo. E explica: "Quando você mata um homem está roubando uma vida. Está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia está roubando o direito à justiça”.

Simples, não é?! Aí me pergunto se muitas outras coisas não podem ser tratadas assim, de forma tão direta. Para mim, de evidente tendência à prolixidade, serviu como um contraponto importante. Em resumo, este livro, simples e exato, deixou para mim um registro relevante. Ficam as dicas: do livro e de uma reflexão sobre a passagem descrita, que, em tempo, remete ao simples e não ao simplório!

Ilustração: Simplicity VIII, Carlo Marini.

sábado, fevereiro 25, 2006

O Aprendiz e o Sabichão

O aprendiz sabe pouco do tudo
Mas muito sobre o nada
Tem consciência do que lhe falta: saber
E, assim, compreende a extensão do muito a conhecer
Entende que, se alguém já viveu o que ele, aprendiz, pretende viver
Tem pelo menos algo a contar
E, se tem algo a contar, cabe escutar

Respeita o caminho à vista
Nele as pedras, as trilhas, os desertos e os oásis
Sem distinção
Sabe ouvir para um dia saber falar
Falar para um dia se fazer ouvir

O sabichão sabe pouco
Sobre o tudo e sobre o nada
Quando olha adiante vê um espelho
Que distorce o passado e esconde o porvir
Incapaz de distinguir entre o sábio e o tolo, entre o ser e o estar
Julga ser um
Quase sempre é seu oposto

Amarrados aos seus pés estão dois grandes pesos:
a pretensão e a vaidade
Quando tenta ascender, não o deixam chegar
Finge não ouvir para não ter que falar
Finge falar para não precisar ouvir

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Alô, amigo!


Não sou de ouvir rádio. Em geral, prefiro o ruído das coisas. Das rodas do carro deslizando no asfalto, dos cachorros latindo em alguma casa da vizinhança, do vento assobiando sua melodia discreta. Há momentos, no entanto, em que o rádio é companhia bem-vinda. Na estrada, num dia de comemoração, em momentos em que a solidão se faz incômoda e é preciso entreter os pensamentos.

Ultimamente, mais por um dever de ofício (de publicitária) do que por qualquer outro motivo, tenho acompanhado a programação de várias rádios das cidades do interior de São Paulo por onde transito. E nesse exercício de ouvinte, algo, que deixaria professor Pasquale e todos os seus colegas de ouvidos constrangidos, tem me chocado: como falam de forma errada os locutores de algumas rádios! Aparentemente sob os pretextos de falar “a língua do povo”, de usar o linguajar acaipirado do interior e de se aproximar de sua audiência, ultrajam a gramática e chegam a se perder entre tantas concordâncias equivocadas, fazendo-se até incompreensíveis em algumas situações.

Todos cometemos nossas gafes. Isso é óbvio e saudável até. E temos o direito a tal. Eu mesma ao inaugurar esse blog me equivoquei sobre a escrita correta de “sarau”. Mas, diante de meu erro enrubeci solitariamente. E me apressei em colocar as letras certas nos lugares corretos para que outros não cometessem o mesmo deslize.

O que vejo como algo triste, no mínimo, no caso das rádios, é o fato deste “falar errado” não parecer constranger ou preocupar. O fato de ser corriqueiro. Aparenta um descaso de alguns profissionais com o papel de comunicadores e formadores de opinião que escolheram ou que lhes foi atribuído. Como esperar de um povo o bom uso da língua (que faz parte da uma boa educação) se alguns que podem (e devem) dar o exemplo não o fazem?!

Alô, amigos radialistas e locutores! Que tal mais sintonia com a nossa gramática? Maior atenção e cuidado nesse quesito. Os amigos ouvintes agradecem.